Nem em todas as letras, mas sim em humanidade: Ser horizonte aqui
Por Isabela Frade
Em um curto mas épico reflexionar, caminharemos sobre algumas teses científicas que emergem no atual cenário de grandes e importantes transformações sociais. Vamos pensar sobre o que fazemos a partir de paradigmas que se fundam em nosso pensamento e sobre o que nos une ou separa enquanto espécie e, neste quesito, como se dá o nascimento da linguagem e, com ela, o sentido da própria humanidade.
Tudo isso para tocar, muito de leve e de modo cuidadoso, por ser extremamente dolorido, em nossa política habitacional. Entraremos, assim, no sombrio espaço da miséria e também da guerra. Mesmo com o grande brilho da arte, na sombra deste artigo, assim penso, estaremos tocando no substrato de nossa própria crueldade. Veja se cheguei lá em busca mais e mais humanidade…

Diante da proposta de des-humanizar, estratégia nascente em alguns círculos de discussão na área de arte e cultura, aposto contrapô-la com coragem, no pensar em vínculos pessoa-pessoa e na forma geral desses elos em crescente amplitude até envolver a espécie.
Há algo em nós, do bom e do pior que, entendo, vale à pena essa aposta, no que tudo de maravilhoso que pudemos, deste nosso ponto de vista, criar e compartilhar. A viagem da Flotilla Sumud à Gaza é o mais recente fato que me impele a seguir investindo nesse ideário.
A comunidade que criamos para acompanhar à distância, na tentativa de visibilizá-la e assim protegê-la, essa missão pacificadora e curativa, reunindo pessoas de diferentes gerações e nacionalidades em um único barco (metaforicamente pensando, é um conjunto, sabemos) me anima.
E, certamente, animou a muitas e muitos para agir em prol da defesa da vida, da segurança, da dignidade de todo e qualquer ser humano. É fácil perceber que essa abordagem “desumanizante” vem da ciência, dada a esquartejamentos e visões funcionalistas dos nossos organismos biológicos ou sociais.
Na urgência de debater sobre o tema, venho trazer à nossa reflexão o sentido de humanidade e defender seu valor à existência da vida não só da espécie, mas de todo o bioma terrestre.
Tendo como pano de fundo o Antropoceno, termo que talvez nossa comunidade leitora já esteja acostumada mas que, ainda que alguém não saiba exatamente, e colocando em poucas palavras, exprime o tempo atual da ação degradante do ser humano sobre o meio ambiente e que, de tão grave, muda uma Era.

É, portanto, o anúncio de que estamos de saída do Holoceno, atual período geológico. A Era anterior, a Cenozóica, durou 65,5 milhões de anos e nós, humanos modernos, causamos alterações climáticas tão graves a ponto de, em cerca de 70 anos, a partir da última metade do sec. XX, gerarmos um novo estado geológico.
Essa é uma tese da climatologia que responde a eventos como o aquecimento global, causa de mudanças da maré, os efeitos radioisótopos das bombas e mísseis, os níveis alarmantes de dispersão de hormônios sintéticos e agrotóxicos nas águas e o mais recente, a formação de novas camadas geológicas produzidas com materiais sintéticos, como concreto e plástico.
Diante desse cenário há a cunhagem do termo, o Antropoceno, pois são nossas as reponsabilidades: nós, os antropos causadores desses eventos extremos.
Assim, retornamos aos argumentos que “desumanizam”, que se dirigem a um contrato mais amplo em interespécies e que sugerem maior proximidade com as plantas e animais, com o mundo não humano como solução.
Há um apelo interessante nessa abordagem que busca abrir o núcleo duro da categoria “humano” , defendendo outros modos de existência.
O risco, porém, do desvio dessa concepção é seu deslocamento para setores acadêmicos: saindo dos nichos mitopoéticos de nossos povos originários, essa abordagem interespécie esquece que não há divórcio entre os estratos de natureza e sobrenatureza com o sentido de humanidade entre esses mesmos povos.
Um retorno ao perspectivismo de Viveiros de Castro pode ser saudável e nos salvar da desumanidade em seu sentido literal.
O iminente antropólogo estuda as narrativas míticas de várias etnias ameríndias e, em perspicaz refinamento e estudos aproximativos e comparativos, aponta o substrato comum entre elas de uma perspectiva humanizante expandida: aos outros seres ou até mesmo a “coisas” como uma pedra ou machado estão atribuídas ao modo humano; podem estar cheias de vida senciente e se exprimirem de forma mais ou menos positiva aos contatos com os ditos “humanos”.
Cada ser/coisa possui história e agência, influindo no correr dos acontecimentos.
Os próprios humanos podem, segundo essa cosmovisão, descender dos animais ou fontes de energia, dos rios ou raios, podem ter sido peixes ou árvores ou, também, em sentido inverso, o poderão ser; e há os seres da sobrenatureza que estão permeando esses contatos e contratos, pois há regras, há princípios éticos: encontramos, segundo Viveiros, relatos de heróis que desceram dos céus ou que subiram, na construção de uma complexa rede de interconexões que nós, modernas criaturas separadas de todo o resto, não possuímos.

Assim, extrair uma categoria e ajustá-la aos nossos desígnios, poderá ser fatal. Haja visto o que ocorre em cada canto do planeta com relação à injustiça e sofrimento.
No entanto, não entendo que devamos discordar radicalmente dessa estratégia de mudar nosso sentido de humano a partir da aproximação com povos originários, e vou argumentar através da obra de alguns artistas que estão buscando trazer à luz revigorados fundamentos. A crítica da coluna passada falava exatamente da Bienal SP e seu esforço nessa direção. Bonaventure Nidikung seguiu não no sentido de criar um resultado único e extrair uma verdade ou modelo, mas no colocar diversos lado a lado e os envolver com extremo afeto e beleza.
Claro que não vou defender aqui que a arte salvará o mundo. Até porque, muitas vezes, somos nós a envenená-lo. Mas que tal fazermos a nossa parte nessa busca?
Que tal nos aproximarmos destes artistas que estão no processo? Nos deixar envolver por essas energias certamente nos fará melhores. E o que nós, capixabas (vejam eu me colando aqui, com todo o respeito), podemos aproveitar neste momento, o que está no ar para respirarmos sobre esses novos tempos que deveremos criar?
Eu recomendo para esse exercício uma ida ao Palácio Anchieta para uma experiência estético política sobre as letras, a mostra Línguas Africanas que fazem o Brasil – uma itinerância do Museu da Língua Portuguesa. Vamos ter bastante tempo para curtir, pois ela fica em cartaz até 14 de dezembro.
Mas não deixem para depois pois assim vão poder voltar algumas vezes e ver mais e mais. E devemos fazer esses retornos. Vamos abandonar essa ideia de que é apenas um vislumbre o que pede uma obra. A arte pede presença.
Essa pequena mostra é densa, cheia de camadas cosmológicas e extratos sensoriais. Há cantos, brincadeiras, comidas, rezas, festas, trabalhos, causos contados por várias personalidades de diferentes temporalidades e lugares e, ali bem no meio desse confluir de linguagens, uma obra que vale à pena ver mil vezes.
Entre bordados, fotografias, vídeos, músicas, instalações aparecem os desenhos de Castiel Vitorino Brasileiro: Me basta mirarte para enamorarme otra vez, uma sequência de desenhos a giz de cera que são – no mínimo – espetaculares.
Estão em uma sala negra, pouco iluminada onde, em alinhamento, incide o foco de luz; uma expografia precisa que revela um olhar deslizante a uma a uma dessas, eu diria, preciosas cartografias. Em uma sequencia em passos, que poderiam ser interpretados como uma analogia à uma via crucis (talvez, Castiel?); nela a artista representa, passagens estre mundos.
A obra, identificada como inscrições-desenho em um cosmograma, compõem-se de vários elementos gráficos e cromáticos afro referentes, contendo palavras em várias línguas: português, espanhol, inglês, quibundu.
Os quadros, todos em papel, fundo preto, cores vibrantes, todos eles fulgurantes. Desenhos que, em sua pequenez, pedem olhar aproximado, demorado em cada configuração. E, pois, sim, tem palavras, as pistas para uma imersão que ela conduz.
Ao nos determos, na contemplação nos ensinam sobre outros mundos, sobre potências mais que humanas que, porém, somente nós, em nossa condição, podemos sentir e dizer.
É sobre essa humanidade sensível que nos cabe alimentar e resguardar, essa sobrevivente de tantas agressões e misérias, a cultura negra que herdaremos se abrirmos nossos olhos.
Tenho receio de seguir descrevendo a obra de Castiel e perder meus limites até mesmo porque sou contra a interpretação, dizer o que isso ou aquilo significa empobrecer a arte, somente quero demarcar a impressão que seus desenhos me causaram e fazê-los, leitores, irem buscá-los.
É somente a presença que servirá para que essa obra lhes fale. Escutem-na com os olhos ávidos.
E não é somente ela, Castiel, a nos enfeitiçar. Há Natan Dias com seu òrìsà no centro dessa mesma sala, escultura de aço pousada no centro de um círculo amarelo, instaurada como uma estela, seu enorme peso vibrando ancestralidade e, em outro espaço, as levezas de Jaíne Muniz em Ser Horizonte e O que a água levou entre instalação com tecidos e palavras e pintura, respectivamente.
Ser horizonte aqui, impressa no fundo da parede é a frase que me moveu a essa escritura. E importante: a obra faz parte de uma série cujo título também nos diz respeito: Espaços para desmaterialização humana.
Tantas outras configurações seguem no encanto das letras e seus estágios anteriores, pré-linguísticos como as contas, as adinkras – as insígnias mágicas e insurgentes, as performatividades gráficas dos pontos e riscos de umbanda que, na expografia instigante, nos engolfam pelas projeções de topo como também as rendas e seus alinhamentos em auto relevo, texturas e sobreposições, pois os babados são feitos para rodar. Pede atenção a sala de vídeos com importantes documentos etnográficos, depoimentos preciosos assim como a instalação com fotografias e gráficos, riquezas a serem lapidadas com intensidade.
É tão importante seguirmos para lá com humildade, em situação de aprendizes, como a fazer novo letramento, e redescobrirmos um velho dizer que se tornará muito mais significativo. A linguagem é o que nos torna verdadeira e integralmente humanos.
Aprender sobre outros modos de dizer, ver os extratos gráficos que cunharam suas primeiras letras, é saber sobre o arcabouço dessas culturas que hoje nos pertencem, mesmo que não tenhamos consciência. Vemos palavras de uso corriqueiro em seu marco original, como fofoca, darivada da palavra iorubá àfófó ou cochilar, de origem quimbundo koxila, significando dormitar. Nessas vivências apreendemos nossa língua como registro de nossa história.
Tiganá Santana, na curadoria, explicita essas dimensões de aprendizagem tácitas: “Queremos dizer que enunciar ‘língua’ é se referir a um modo de existir; portanto, não é algo instrumental, mas como se concebe e vivencia o mundo, com suas ocorrências apreensíveis e insondáveis.”
Mas vejam, contrastando com essas exuberantes presenças dispostas nos imponentes espaços do palácio, no lado de fora, estão barracas muito precárias, instaladas nas bordas das calçadas e na pracinha à esquerda, reunindo moradores despejados da Vila Esperança, comunidade que perdeu o direito à moradia em terreno sob disputa judicial.
Corpos periféricos, comunidade composta por maioria de corpos negros, estão vencidos e perderam o seu lugar.
Conversei com algumas pessoas ali para entender o ocorrido e um relato me pareceu contundente. Uma senhora contava como perdera tudo o que tinha; No dia dez de setembro, ainda este mês, ao voltar de seu trabalho de faxineira, nada encontrara de seu. Estava tudo destruído. Permanecia ali com seus vizinhos à espera de algum auxílio para retornar ou encontrar uma solução. Estava perdida, sem saber o que fazer.
Apareceram doações, um caixote de frutas, uma sacola com vestidos que as mulheres receberam de um brechó. Havia uma cozinha comunitária e roupas secavam ao sol, como um acampamento se mostrando resistente. Soube ontem que a polícia recebera ordem de os retirar daqui a 11 dias.
E, o que não nos deixa calar: para onde vão? Como vão retomar seus empregos, a vaga na escola das crianças, o tratamento no posto de saúde, as relações de vizinhança? Como uma intrincada história recente de apagamentos e políticas desastrosas vão gerando miséria e desumanidade sem que órgãos públicos de assistência estejam atuando?
No interior do palácio, Tiganá Santana nos adverte que “é preciso prestar atenção ao que trazemos em nós e nos recusamos a reconhecer sob risco de seguirmos caminhos sombrios em relação à nossa subjetividade e aos atravessamentos coletivos”.
Porém, do lado de fora, vemos as portas do palácio agora mantidas cerradas.
A Vila Esperança nos coloca exatamente no ponto de onde precisamos retornar.
Não apenas buscar nossa humanidade nas línguas que falamos sem conhecer, nos traços de outras culturas matriciais que precisamos resgatar, mas também no acolhimento dos mais vulneráveis, esses corpos que também nos contam suas histórias do presente, pois está tudo vinculado. Muitas dessas pessoas desalojadas são descendentes diretos ou indiretos dos que estão lá registrados nas fitas etnográficas.
Do lado de fora, em uma das faixas de protesto, clamam: – Línguas Africanas no palácio, vozes negras nas ruas. Falaram tudo, não é?

Durante a produção dessa coluna,a autora recebeu a notícia de que as pessoas de Vila Esperança foram alocadas para Ponta da Fruta, aparentemente uma boa notícia.

Doutora em Comunicação pela USP, artista e pesquisadora. Professora no Centro de Artes da UFES e no Programa de Pós-Graduação em Artes, atua na linha Interartes e Novas Mídias. Mineira de origem, com passagens pelo Rio e São Paulo, hoje vive em Vila Velha, dedicando-se ao desenvolvimento de poéticas relacionais e diálogos interculturais.
