Paisagem, um olhar para o infinito
Por Isabela Frade
Uma das práticas de cura dos olhos, segundo meu oftalmologista, é olhar para o horizonte. Vá descansar os olhos, me dizia também minha avó, a me ver desdobrada sobre livros durantes horas a fio. Não sei como explanar a comprovação disso em termos científicos mas ambos, a medicina e a cultura tradicional estavam de acordo. Assim é que, míope, com o hábito de olhar as coisas muito de perto, fui aprendendo o deleite de buscar o horizonte. Coincidência interessante, vovó morava em Belo Horizonte e eu menina, no segundo andar de sua casa, conseguia alcançar as distantes montanhas que cercavam a cidade, hoje já oclusas pela profusão de altíssimos edifícios. Nessas vistas, quando percebia uma ave, quase sempre um garça voando no final do dia, ao por do sol, as nuvens cor de sangue e depois tingidas de uma palheta única a cada dia. Lembro dessa prática que me trouxe um dos meus mais deliciosos hábitos que é buscar o por do sol estivesse onde estivesse, nem que fosse por uma fresta ou reflexo de espelhos. É sempre emocionante.
E toda uma tradição artística, desde tempos remotos, que denominamos paisagem a essa prática de devota. Não podemos afirmar que é sobre apenas o prazer de que se trata, muito era sobre estratégia de guerra, obra de espiões artistas (rsrsrs, falo de modo jocoso mas é verdade! Eram estudos de imagem para acordos políticos ou invasões, se media o poderio de um estado por seus espaços constituídos. Hoje esses estudos são feitos por fotografias tiradas pelos drones). Esses pintores ou gravadores se dedicavam a mapear os fluxos de pessoas ou navios, por exemplo, as fortalezas e sua localização estratégica. Outros caminharam para as elaboradas cenas de guerra ou momentos de celebração do poder, onde o centro dos interesses eram os personagens em suas ações heroicas ou gestos simbólicos.
Mas a arte, quando pode buscar sua autonomia, se divorcia da cartografia de guerra e do mecenato interesseiro na propaganda política e requere o gozo estético, o puro prazer, como categoria ímpar para a sua existência. Uma utopia, é claro. Mas estamos no Romantismo e o sentido de verdade, beleza e sentimentos exaltados estavam alimentando esses desejos que impulsionaram a arte, especialmente a pintura, a música e a poesia, a se lançarem a essa imaginação idealizada da natureza. E a beleza, imbuída nos cânones clássicos como harmonia, construía composições detalhadas sobre os elementos de uma localidade, inaugurando um caminho para o olhar ao horizonte. Nasce o desejo de paisagem, que até hoje alimenta nossos mais refinados prazeres.
A paisagem é um conceito que nasce na arte. Hoje, é tão disperso esse habitus, que pouco nos damos conta de que é um artifício, fruto de uma cognição elaborada, de uma educação estética, como pregava Schiller, o filósofo romântico por excelência. E foi na Alemanha do séc. XVIII que esse movimento eclodiu, causando um fervor emocionado na relação homem & natureza.
Não vou continuar na vibe de história da arte (nossa, não é uma aula, né? Pode ficar chato… rs) mas esses pontos de um desenvolvimento histórico são meus argumentos mais fortes para trazê-los, leitores, ao reflexionar sobre como a paisagem é uma construção sensível e inteligente. E é no pré- romantismo, se me deixam só mais um pouquinho falar nesses lastros, com Kant, que a noção do sublime iria se dispersar e, seguidamente, alimentar o movimento Romântico.
Kant tratou, a partir do seu antecessor Burke, que elaborou o conceito, de um sentimento específico que ocupa cada indivíduo na contemplação de uma cena natural grandiosa. Em um dos seus passos marcantes na aurora romântica, Kant iria identificar a sensação mista de temor e admiração, de encantamento ambíguo e intenso, mas completamente arrebatador, o sublime. Pode ser já um longo tempo desde os idos de 1790, quando publica a Crítica do Juízo, mas esse sentimento foi uma das mais belas heranças que recebemos do idealismo alemão. É quando subimos a montanha, e olhamos o horizonte que voltamos a vivificar essa paixão, que habitamos novamente esses sentimentos de enlace afetivo, são ensejos sensoriais que nos fazem escalar a esse desejo. Essa atitude romântica se espalhou por todo o canto e hoje temos os lugares, os sítios destacados para se olhar as paisagens, os mirantes. E muitos artistas a isso se dedicaram e se dedicam: criar paisagens.
E, para falar de um deles bem presente em nossos olhares, vamos até Vila Velha, recordar um majestoso pintor e professor que se vinculou `a cultura capixaba por mergulhar profundamente na natureza local, Homero Massena (1885-1974). São deliciosas suas pinturas à óleo que ainda contem o frescor das localidades escolhidas, como as vistas que ele pintou na subida do morro da Penha, pertinho da casa onde morou. Sentimos o frescor de suas sombras.
Massena morou seus últimos anos de vida em uma casa defronte à Prainha, perto do mar que as obras públicas tanto afastaram com cimento. Fico imaginando o que diria Massena se fosse olhar agora diante de sua porta e percebesse que a paisagem havia sido roubada pelo deserto cinza e estruturas arquitetônicas estéreis. O mar, já muito distante, e com a calçada elevada, nem mesmo a faixa de areia se pode vislumbrar. A insolação, elevada a seu maior grau pela quase ausência de sombras de árvores, exige que apertemos os olhos ou nos pede o imediato uso dos óculos escuros pelo agressivo refulgir da luz solar ao rebater no solo nu, causando a mágoa do ofuscamento.
O desconforto não é inocente. É um programa de cercear o transeunte sobre a lâmina de concreto que se transformou a praça. Ali é o centro vazio do poder, como diria Foucault. Mas é também o grande mercado de shows e programas da prefeitura. Ou seja: o vazio da sociabilidade comum, cidadã, para o distante e excessivo brilho desmaterializado do poder. Porém, sigamos a olhar… Vemos que é preciso caminhar até uma certa distância para chegar à estreita faixa de areia, chegar aos barcos de pesca, tão apartados de sua antiga residência. O espaço cria uma “zona morta” só rompida pelo movimento do complexo de peixarias que ficaram ainda em aprazível área de castanheiras, ao seguimos caminhando ao fundo e à direita de sua casa. No final de semana, alguns ciclistas desafiam o solarão em passeiam livres pela praça vazia. Hoje, o público recuou para uma pracinha ainda linda e vívida, a praça da Igreja de N. Sra. do Rosário.

Na imagem vemos um quadro, óleo sobre prancha de madeira, pintado em 1951. Seu título: Casa de Homero Massena. Um registro feito na sua casa-museu, onde fui para pensar sobre a obra do artista e seu legado. Massena é um verdadeiro artista-herói e sua vida é rica, experiências em muitos fazeres, viveu em diferentes lugares e, o que considero o mais importante: criou a Escola de Belas Artes em Vitória. Foi reverenciado e deixou inúmeros seguidores. Seu encanto com a Prainha é nítido, esta segunda tela mostra esse afeto entre outras várias cenas que Massena pintou. Pelo seu olhar vemos, ao longe, o maciço conhecido como Mestre Álvaro, configuração tal na qual nossos olhos podem mergulhar no incomensurável.

O segundo quadro que capturei foi Volta da Praia, onde o artista retrata-se caminhando logo em seguida à sua esposa, em direção à casa. Vejam que sua sensibilidade captura os elementos vadios da paisagem como as folhas dispersas na areia, o matinho ao redor da cerca de bambu, as rachaduras no reboco na parede lateral da casa, como também mostra, com suavidade, a luz solar do meio dia, com suas sombras ao pino. Também as suaves pinceladas com que registra a rede de pesca meio caída na lateral do barco, como se descansasse. Tudo flui suavemente com marolinhas marcando o verde próprio das praias de Vila Velha. Ao fundo, em segundo plano, vemos o barco com a vela de cor vermelha meio desbotada, com nuances de movimento pela alteração do tom. Ele nos lembra dos ventos constantes na Vila. Ali se pode ver o cuidado com que demarca cada árvore na costa de Vitória, no outro lado da Baia e apenas um mínimo toque de branco nos informa sobre uma grande construção no outro lado. E, mais ao fundo, Mestre Álvaro, a grandiosa massa de pedra roxa, como a vemos desfilada em um céu de azul intenso mas nebuloso. Aparecem os frescores do quintal da casa por onde passam, resquícios de uma vida de sentidos sutis que, pouco a pouco, a cidade iria perdendo com seu afã pela modernidade.
Hoje a área estava toda movimentada com a instalação de decoração natalina. Um grande galpão estava montado para o show das autoridades. A pequena casa de Massena, lá do outro lado da rua, em outro ritmo, branquinha, tão delicada, mostrava aspectos de uma personalidade dedicada ao mais simples e puro. A casa tem apenas três cômodos internos: o quarto do casal, pequenino como o ateliê do artista e seu escritório, além da parte social com uma sala miúda, o banheiro e a cozinha, essa com saída para o quintal que, imagino, deveria ser o centro de sua vida social e um tanto aprazível, com muitas plantas, já que Massena pintava flores e pássaros nas paredes do interior da casa, como se fazendo com que esses verdes se multiplicassem internamente.
Na internet podemos ver muitas de suas obras que se espalharam pelo Brasil e ainda alcançam lances relevantes em leilões, como um nome apreciado entre especialistas. Há uma galeria de arte batizada com seu nome e devotada a artistas emergentes no centro de Vitória, um relevante espaço de arte. Na casa-museu ouvi relatos sobre seus passeios diários com uma turma de artistas para pintar as cenas do morro da Penha, em constante encantamento com a paisagem. Era um pintor compulsivo.
Através de seu legado – em modos de construção de imagens e atitudes – podemos sentir a vibração de seu pincel sobre elementos sutis entretecidos em um contexto maior. Havia o grande cenário onde ele nos levaria ao infinito mas ele sempre nos trazia de volta aos elementos mais próximos, à textura de uma cerca, aos fios de um capim. Um pintor modernista que aderiu ao delírio romântico das paisagens.
Hoje o brutalismo das construções contemporâneas escancaram suas formas de modo agudo, contrastando com o romantismo ainda latente nas suas obras. Há cortes severos nas paisagens de Vila Velha, que ele tanto amava, e em toda a Grande Vitória que, em suas outras zonas esquecidas, periféricas, são tomadas hoje somente pelo acúmulo de foscas massas cinzas produzidas em profusão por volumes desconexos. Caixas pesadas como os galpões em zonas industriais como Cariacica. Este município que hoje busca recuperar sua orla mas sem a noção paisagística do detalhe como nos apontava Massena, ao marcar o caráter de cada um dos planos do espaço paisagístico, aqueles com as pavimentações brutais do cimento e com algum mobiliário urbano de descanso ou de exercício, como se a linha do mar fosse uma grande academia de ginástica e não um espaço natural vivo.
Na capital, o moderno gigantismo tomou a entrada da baía com edificações luxuosas. O velho foi completamente negado, é como se as poéticas rachaduras dos muros de sua história se cobrissem obsessivamente pelo liso absoluto, sem texturas. São fachadas altíssimas, com concreto, vidro fumê e outros materiais pesados como os granitos e as pedras marmóreas. São belos enquanto desenho arquitetônico e imperam pelo crescimento verticalizado que muitos identificam como progresso. Manifestam uma recusa em reconhecer o valor do passado, do mais tosco e do natural. A memória é trocada pelos apelos exógenos do fulgor vítreo, quase tudo é reflexo. Não há vínculo entre as massas de cada elemento, todos precisam ficar absolutamente separados. Talvez uma disputa de fachadas, para qual a mais alta crie o sentido de supremacia.
A cada dia se perde o caminho para o olhar mais distante. Vamos nos deixando tomar pelo brutalismo, pelo costume com que as aparências de quem só cresce e fica no âmbito do círculo de poderes. Um gigantismo espremido em verticais aglomeradas. No processo, vamos modificando nossa percepção e perdendo a capacidade de conexão com os elementos menores e leves.
A estética é algo que nos modifica desde dentro. Ela nos habita. E, se é bruta, ela nos brutaliza. Nos faz ter costume de andar por longos espaços sem vida, ter como hábito passar por pavilhões de concreto de uniformidade quase absoluta e os tomarmos como nosso caráter de atualidade e de contemporaneidade absoluta. Ao desconsiderarmos o passado, o torto, o velho, vamos descartando a memória social e perdemos os vínculos com as qualidades que caracterizam cada localidade. O bruto perpassa por tudo, se fazendo camada tampão, oclusão da condição de patrimônio cultural os traços de cada cidade.
Não obstante, nessa disputa pelo espaço urbano o brutalismo nos chega agora sob forma de urbanização dos espaços naturais. É o caso do Morro do Moreno, Monumento Natural – MONA – que o poder municipal de Vila Velha quer modernizar. Os desenhos do projeto apavoram porque vemos o topo do morro sendo tratado como plataforma de concreto extensa, como se fossem cortar o topo inteiro, ou explodi-lo para retirar sua volumetria de rocha. Seria mesmo brutal não fosse a guerra jurídica que o protege. Mas o que preocupa é a rudeza de nossos sentidos envolvidos nessas operações de repaginação modernosa. O povo está falando em gourmetização do morro. É que ele quer criar ali um bistrô. Bem, isso além de trenzinhos, rampas diversas e outras barbaridades.
Se retornarmos ao nosso artista, vemos o contraste radical que a atual estética desse anti-paisagismo brutalista quer impor. É a negação direta do olhar que Massena havia tratado pelas suas telas, na conversa íntima que tinha com cada pedra, com cada folha. Há tanta vida em suas pinturas!

Mas as esperanças não cessam. Suas lições ainda estão lá, caro mestre. Para quem ainda não pode ver, é um convite para conhecer sua morada. Ir lá sentir como viveu seus últimos vinte anos, intensamente feliz. É uma mimosa casinha na Avenida Antônio Ferreira de Queirós, no número 281. Tem uma roseira de flores amarelas na entrada, plantada por um de seus admiradores. Todo canela verde sabe e já foi lá, quem vem de outros municípios pode chegar de barca, sai direto na praça. Um passeio muito bom com a dica do lazer na pracinha da igreja, uma delícia de lugar. Montes de bibocas bacanas para depois tomar suco, sorvete, cerveja sob um arvoredo.
E, se pudermos voltar a olhar essas pinturas tão eloquentes, quem sabe um dia ali, na grande plataforma cinza, a grama possa voltar rompendo todo o concreto? Será longo o prazo do brutalismo ser vencido pela nostalgia do azul e do verde e de tantas outras cores que esquecemos de sentir? Quando voltaremos a ser amantes da paisagem e vibrarmos no infinito?
Aqui fecho o artigo agradecendo a cessão das imagens ao Museu-Casa Homero Massena e ao arquivo RDA, em Vitória. As fotos do museu são minhas, e simplesmente não fazem jus ao vigor de sua presença, corram lá.

Doutora em Comunicação pela USP, artista e pesquisadora. Professora no Centro de Artes da UFES e no Programa de Pós-Graduação em Artes, atua na linha Interartes e Novas Mídias. Mineira de origem, com passagens pelo Rio e São Paulo, hoje vive em Vila Velha, dedicando-se ao desenvolvimento de poéticas relacionais e diálogos interculturais.
