Então, é Natal! A cultura natalina no ocidente e as prerrogativas de um bom velhinho
Por Isabela Frade
Por que o Papai Noel faz tanto sucesso? O que tanto atrai em um velho gordo e barbudo que só aparece no período de Natal? Por que vemos a personagem impressa em cartões, toalhas de mesa, velas e enfeites com sua cara risonha em todo canto? Seria o Papai Noel hoje uma figura apenas comercial ou estaríamos tocando em temas mais profundos quando fazemos uso de sua imagem?
A figura do Papai Noel ocupa lugar central no imaginário natalino das sociedades ocidentais contemporâneas. Frequentemente reduzido a um personagem infantil ou a um emblema do consumo, o Papai Noel pode, no entanto, ser analisado como um operador simbólico dotado de eficácia social.

Quem propôs essa abordagem foi Claude Lévi-Strauss, antropólogo francês que esteve quatro anos no Brasil entre 1935 a 1939, estudando os povos originários e fazendo parte da equipe de acadêmicos na fundação da USP em 1936, hoje a mais importante instituição de ensino da América Latina. Um intelectual de peso, uma figura imponente no mundo acadêmico e, para mim, como ardente uspiana, referência basilar.
Através da figura do Papai Noel, Lévi-Strauss pensou sobre as relações culturais e a importância de certos operadores simbólicos, uma exceção para quem vinha apenas estudando povos “primitivos”, sociedades nativas que ele preferia denominar como “selvagens”, significando a escolha deste termo uma oposição ao sentido de “civilizados”, buscando romper a arraigada noção evolutiva do homem moderno x primitivo/atrasado, reflexo da visão colonizadora que se impusera mundialmente.
Brilhante, intrépido, a partir de suas pesquisas na Amazônia, publica O pensamento selvagem em 1962, em Paris. No entanto, antes disso, movido por uma situação peculiar, elaborou suas reflexões em um pequeno texto, O suplício do Papai Noel.
Nele desenvolve a análise de um evento insólito ocorrido em 1951 na cidade francesa de Dijon: a queima de um boneco com a figura do Papai Noel. Tocado pela violência do gesto, o antropólogo segue a história dessas celebrações natalinas revelando o domínio da cultura norte-americana sobre o Natal, a causa da emergência de uma figura da personagem em um outdoor da Coca-Cola, em Saint Louis.

Lévi-Strauss argumenta sobre as potências de determinadas imagens ou “tropos” (figuras de linguagem) que representam pontos nevrálgicos da tessitura sociocultural em toda e qualquer sociedade. Papai Noel estaria dentre esses símbolos com intensa carga afetiva, circulando por distintas partes do globo.
Distantes já 75 anos desse livro fantástico em sua interpretação sobre os ritos do Natal, voltamos a verificar a permanência dos traços então apontados por ele.
A imagem criada pelo artista Fred Mizen em 1930 obteve sucesso imediato e segue viva até hoje. Refaço então a pergunta entre nós: o que teria então o velho? O seu gorro vermelho? A sua barriga pançuda? O grande saco nas costas? O cajado? A sua cabeleira branca? O que faz o sucesso do Papai Noel?
Podemos ainda tratar o tema pelo viés arquetípico ou buscar sua fonte mística, nos aproximando da psicologia analítica de Carl Gustav Jung, contemporâneo do nosso antropólogo, ou tratarmos das tradições folclóricas da Letônia que, segundo reza a lenda, Papai Noel teria nascido lá como um religioso, São Nicolau.
Mas por que ele vigora ainda com tanta força, reconhecido por toda a cultura global? O que o velho de longa barba branca tem? Qual o motivo de tamanho sucesso? E por que países quentes, em pleno verão, vão recriar esses cenários de neve?
Quais mais elementos podemos colocar ao seu lado? A coroa de azevinho? Sua roupa vermelha e o gorro com o pompom de lã branca? O seu farto bigode? Qual elemento podemos considerar como o mais significativo no Papai Noel? E, então, relendo Lévi-Strauss, percebemos que não se trata de “acreditar” ou não, mas de criar um processo de convergência, de um dispositivo que funciona como um aglutinador social.

Assim o vemos nas praças da cidade, sejam elas em áreas públicas ou em shoppings, como essa foto que tirei dele no Shopping Praia da Costa, em Vila Velha, um dos mais fofos que encontrei. Cercado de um cenário natalino, lá estava ele, sentado em seu trono recebendo crianças para fotografar. Não vou tocar na maldade de cobrar pelas fotos quando muitas crianças vão apenas passear lá para vê-lo e como é o triste sintoma da mercantilização de tudo. Ainda assim elas querem ao menos abraçá-lo, falar de desejos, pedir presentes. Os pais percebem como é importante para elas, talvez um marco de um modo de ser criança tão puro e breve. Fica a lembrança de um dia em que acreditaram na magia do Natal.
Estava prestes a fazer uma crítica ácida, especialmente sobre esse aspecto da mercantilização no Natal, na breguice que é ficar apostando em roupa de lã sob 40 graus Celsius, mas me lembrei dessa versão interpretativa de Lévi-Strauss. Achei interessante apostar novamente na via simbólica, tentar recuperar o fundo de beleza e humanidade na figura de um “homem bom”.
Generoso, ele distribui presentes entre as crianças, que se emocionam ao vê-lo. Será que ainda acreditamos nisso e projetamos, em nosso íntimo, um apelo à inocência delas? Desejamos que nossas crianças sejam, elas mesmas, inocentes e boas? Ou estamos tornando-as meras vítimas do capitalismo? Mas vejam, algo supera essa dimensão mercantil ou, de certo modo, a faz vigorar. Ok, Papai Noel é também um rito do capitalismo, mas por que e como funciona?
Por que seguimos, mesmo os ateus, ainda a nos cansar nas compras, montar árvores e pendurar pela casa bugigangas natalinas? O que requer de nós esse rito que se supera ao presépio e à narração do nascimento do Cristo? Por que ninguém fica de fora? (Ah, bem, nem todos, me desculpem os chatos ho-ho-hooo).
A mesa enfeitada, o peru ou o frango, as nozes, os bolos e as comidas que cada família prepara para se ter fartura. O monte de presentes, os sinos dourados e as luzes brilhantes: fartura. O velho gordo e satisfeito, generoso: fartura. A cor vermelha dominante: fartura, vida em intensidade! Assim, aqui eu aponto para o que interpreto sobre essa função simbólica do Natal devotado ao Papai Noel. Nosso bom velhinho é o centro de um rito de fertilidade e fartura, de abundância, de dádiva. E, claro, por isso pode ser uma referência ao regime político do sistema capitalista e vender refrigerante pelo mundo todo. É através desse operador simbólico que é preciso se comunicar. E isso faz toda a diferença.
A análise do Papai Noel à luz do conceito de eficácia simbólica permite deslocar leituras simplificadoras que o reduzem a um produto da fantasia ou do mercado. Trata-se, antes, de um dispositivo simbólico altamente eficaz, que evidencia a persistência do pensamento mítico nas sociedades modernas. Nesse sentido, o Papai Noel aproxima-se da figura do xamã analisada por Lévi-Strauss. Ambos operam num regime simbólico em que a crença compartilhada produz efeitos reais. Enquanto o xamã reorganiza o sofrimento, o Papai Noel organiza o desejo, inserindo-o numa economia simbólica da dádiva.
A pergunta sobre a existência “real” do Papai Noel revela-se, assim, irrelevante do ponto de vista antropológico. O que importa é sua existência simbólica, reiterada anualmente por práticas coletivas que envolvem preparação, expectativa, troca de presentes e encenação da crença — mesmo quando esta já não é literal. A resistência e eficácia simbólica do Papai Noel manifesta-se sobretudo no universo infantil, mas não se restringe a ele. O adulto, mesmo após a dissolução da crença literal, continua a desempenhar o papel de mediador do símbolo, garantindo sua continuidade. Tal dinâmica evidencia o caráter performativo do ritual: o símbolo funciona porque é encenado, reiterado e transmitido. A eficácia do rito reside na adesão coletiva ao sistema de significações que o sustenta.
Fofo e lindo, não é? E para você? Qual o sentido do velho Noel? Eu apostaria no desejo do renascer da bondade.
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Doutora em Comunicação pela USP, artista e pesquisadora. Professora no Centro de Artes da UFES e no Programa de Pós-Graduação em Artes, atua na linha Interartes e Novas Mídias. Mineira de origem, com passagens pelo Rio e São Paulo, hoje vive em Vila Velha, dedicando-se ao desenvolvimento de poéticas relacionais e diálogos interculturais.
