Travessias inauditas, vida e morte sem fim do artista

Travessias inauditas, vida e morte sem fim do artista

Por Isabela Frade

O que é o destino de uma obra de arte? Um museu? Uma coleção? Uma fotografia em um livro de crítica de arte? O que determina o lugar de um trabalho e qual o seu valor, afinal? Quem pode decidir o que, como e quando aparece num ambiente tão complexo como o circuito de arte onde cada coisa se apresenta como um desafio à nossa sensibilidade e apreensão? Hoje o texto começa a tocar nessas questões, abrindo uma próxima série de publicações futuras e desenvolvemos hoje a primeira reflexão sobre o tema da aparição a partir da obra Navegantes do artista cearense Marcos Martins (1973 – 2025).

Natal chegando, crianças e adolescentes entrando de férias e os enfeites luminosos pocando pelas fachadas, o comércio entrando em frenesi.

Nesse burburinho, se conseguir fugir, encontre um dia para ir ao Parque Cultural Casa do Governador, em Vila Velha, ES. Vá sonhar sobre as coisas de céu e mar, meditar sobre um barco que é quase também uma casa, pois é feito de pau-a-pique, tem sapata e se finca fortemente no chão, em longas palafitas.

Por ele vivemos um momento emocionante neste último domingo, dia 8 de dezembro. Uma homenagem ao artista Marcos Martins (18.09.2025), falecido recentemente, elevou aos ares esse barco de barro e madeira, num gesto simbólico de realizar o seu último destino.

Projetado para uma ação coletiva em uma praia no Nordeste e depois trazido para sua retrospectiva no Museu de Arte do Espirito Santo, o MAES, em 2024.

Aqui em Vitória, o barco esteve suspenso exatamente como agora, mas seu contexto era o centro da cidade, em uma grande e fluente via expressa. Agora o barco fica em um recanto bucólico, no alto de uma pedra, no final da pequena enseada, a Praia do Chavão. Deserta, dedicada à preservação ambiental, sua quietude é a dimensão perfeita do sonho requerido pela obra que se intitula Navegante.

É de barro e, ainda assim, voa… E faz muito sentido para nós que o conhecemos e notamos sua intensa fixação pelo joão de barro, pássaro construtor.

O processo de feitura nasce a partir de um barco de madeira com 3 metros de comprimento e coberto de uma camada espessa de barro e fitas de lenha trançadas, como na técnica de construção de casas populares dos tempos coloniais conhecida como taipa, taipa de pilão, sopapo ou pau a pique.

Ao final, leva uma camada de barro com estrume para impermeabilizar e tapar rachaduras. Mas podemos notar que não se trata de um modo coerente e regular: a construção é de outro tipo, mais livre, como se as fibras e gravetos estivessem participando do desenho, agindo sobre a forma.

Elas não estão amarradas sobre os limites das lâminas laterais: elas saem do planos, soltam-se no ar em fios indisciplinados. Erguida sobre palafitas, a escultura se levanta sobre nossas cabeças, é preciso virar-nos para o alto para observá-la.

Vista do chão, a obra parece navegar pelo céu. Estratégia do artista para nos elevar à uma nova simbologia da navegação. Então, assim estabelece a junção de céu e mar que se manifesta também em dinâmica familiares aos olhos capixabas: é a aproximação desses espaços nas nossas paisagens litorâneas, tão comuns em praias planas como Itaúnas ou nas barras dos rios, quando o reflexo do céu se espelha e corre pelas águas. Só que, agora, de modo inverso, é o mar que se projeta no céu.

Foi emocionante o ato de inauguração da obra Navegante de Marcos Martins. Obra n. 5 no Parque Cultural Casa do Governador. Estavam presentes seus colegas e alunos da UFES, a diretora do Centro de Artes Larissa Zanin, o reitor Eustáquio de Castro, os seus orientandos Nannan e Maria Tereza responsáveis por toda a logística de instalação e pelos cuidados com a obra. No centro da cerimônia, o curador Omar Salomão e a primeira dama, Virgínia Casagrande, assim como o secretário de cultura, Fabrício Noronha. Foi solene, mas cheio de afeto.

A partida de Marcos repentina foi fortemente sentida. O artista era um docente querido na universidade e sentimos o impacto com a perda inesperada. Era como se não pudesse ser verdade. Aos 52 anos, estava em grande atividade e com muitas mostras em produção, novos projetos. Em setembro deste ano, Marcos foi visitar a família em Fortaleza e não voltou mais.

Agora era o barco que ele dizia querer colocar naquela praia. Parece coisa de sonho. E de certa forma é. Mesmo morto, o artista vive em sua obra. E, ela, renascendo agora no parque, o traz para nós como um eterno navegante.

E então, finalmente, perguntamos: o que realmente faz a obra: O lugar? O projeto? O público? Ela em si mesma? O que torna um elemento – objeto, imagem, movimento, instalação, sonoridade – uma obra de arte? E, ainda, qual o seu espaço e significação social? E você, leitor ou leitora, para que possa julgar com certa propriedade, precisa saber que, enquanto projetava a obra, Marcos sonhava em vê-la nesse lugar.

Ainda que tivesse criado em uma praia nordestina, em convocatória de obras para tratar do mar e do litoral nordestino, ele pensara em trazê-la para o Espírito Santo e a instalar ali.

Trazer o barco para esse outro espaço de ressonância, uma bela paisagem, o lugar que considerou perfeito para que pudesse estar exposto em modo permanente. O parque é uma instituição relativamente nova mas cheia de prestígio. Importantes artistas expõem ali, permanente ou temporariamente.

Isso é um valor significativo, uma vez que a arte é um bem social e, assim, é legitimada enquanto absorvida por essa instituição. Ganha respaldo de especialistas e a segurança de estar ao vivo, com o público, continuamente.

Como retomamos o ciclo de indagações colocadas ao início do texto, no entendimento da natureza do valor de uma obra de arte, chegamos agora ao mais importante fator que é poder estar em comunicação ativa e aberta ao público. E, como já discutimos em críticas anteriores: é o público que faz a obra. Ou melhor, é quem a faz viva. Mas, então, nos perguntamos, e enquanto ela era sonhada e riscada no papel?

No projeto do querido Marcos, ela já abrigava muitos anseios,,, ela os criava em si. Assim, todos os desdobramentos, a sua participação na grande mostra no MAES, a cooptação pelo sistema de arte e sua entrada no rol de esculturas do parque, o delírio do público, tudo já se aninhava ali, sendo gestado nos seus primeiros esboços. A obra contém de modo latente na sua forma-função imaginante todo um universo de relações que poderão, com muita tenacidade e um pouco de sorte, ganhar o mundo e aflorar.

Ela contém também o eu do artista que foi menino de beira de praia, nordestino, pobre, viveu em casa de taipa, passou fome e sentiu que estava no mundo para criar abrigos, lugares de resguardar corpos, pessoas.

Abrigos poéticos, tênues e leves, moventes, flutuantes. Nichos/casulos/casebres/tendas/ninhos/abrigos, lugares de guardar e proteger devaneios poéticos como Navegante, que hoje singra o céu.

 


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